quarta-feira, 11 de novembro de 2009

o apagão


quando Deus disse: “Faça-se a luz”, não existia a estação Itaberá. o mundo estava novinho em folha, e ainda não tinha efeito estufa, buraco na camada de ozônio, Rio 40º e horário de verão. hoje, o Paraíso é o quarto após meia-hora de ar-condicionado ligado.
o inferno é que Ele, quando também disse: “Crescei e multiplicai-vos”, não imaginou que iríamos levar a ordem a risca e nos tornarmos milhões de seres com sangue fervendo nos trópicos, dependentes de ares-condicionados, ventiladores, geladeiras.
com tudo isso ligado, talvez devamos incorrer ao Gênesis da mesma forma que os novos ortográficos à Gramática Brasileira. onde está escrito “faça-se a luz”, poderia-se acrescentar: “com um pouco de moderação, por favor”.
Deus completou: “E a luz veio”. ainda há pouco, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que a luz se foi por intervenção celeste, porém sem qualquer relação com Ele; está mais para um santo barbudo, com uma chave dourada na mão.
se você estava acordado ontem, por volta das 10h da noite, sabe bem do que estou falando; se estava dormindo, certamente bem do que estou falando. hoje, ninguém [exatamente ninguém] passou ileso de algum comentário sobre o apagão.
o blecaute ganhou a importância de um fato histórico. como as lendárias perguntas de onde você estava quando os johns Lennon e Kennedy foram mortos, hoje, aposto, alguém lhe perguntou onde estava quando aconteceu o apagão, não foi?
eu estava em casa, para quem interessar, escrevendo um post sobre irmãos e biografias não-autorizadas, que pretendo publicar amanhã. quando Itaberá disse: “Faça-se a escuridão”, levantei e, como não tinha o que fazer, fiz a barba à luz de vela.
o problema de ficar sem, hoje em dia, é que as pessoas não sabem o que fazer. geralmente se abanam, espantam os mosquitos, tomam banho frio. quando eu era mais novo, as pessoas se reuniam e ficavam conversando até altas horas. hoje, esperam a luz voltar para postar mensagens, sobre a falta de luz, no twitter.
uma pesquisa certamente revelaria que a grande maioria preferiria ficar sem água que sem luz. os milhões de seres com sangue fervendo nos trópicos escolheriam ficar sem tomar banho que sem ar-condicionado, ventilador, mensagens no twitter. estamos dependentes da eletricidade. ficar sem luz nos incomoda mais por não poder usar os aparelhos eletrônicos que pelo calor e seus desconfortos grudentos.
quer um exemplo? em virtude do apagão, alguns canais de tevê aberta e fechada irão reprisar os programas que não foram exibidos nos estados afetados. é como se na premência da queda do Muro de Berlim, o repórter, de repente, gritasse: “Peraí, negada! Não derruba não, pois tá sem luz e ninguém vai ver”.
o maior sinal da dependência de eletricidade é, no meio do apagão, entrar num cômodo e apertar o interruptor. quantas você fez isso ontem? eu até gosto da falta de luz. de alguma forma, acende-me [analogismo infame!] um saudosismo pueril. de quando era criança e, junto com os meus primos, fazia lanternas com uma vela dentro e o fundo furado como peneira, caçava vaga-lumes e prendia numa jarra de vidro de maionese Hellmann’s e acendia uma fogueira de gravetos e contava histórias de terror.
lembranças boas que agora, terminado este post defronte o ventilador, traz-me a certeza de que o melhor quando falta luz é exatamente quando ela volta. em especial, quando todo mundo grita junto aêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê...


domingo, 8 de novembro de 2009

uma questão


é imponderável a regra-maior da obtusidade humana que estabelece que uma situação absurda terá uma desfecho estúpido. mesmo que se tente evitá-la, não há consideração ou contra-senha que consiga estreitar ou até escapar do ilógico, do inexplicável, do insensato num ato que, em sua origem, não tem palavra que dê sentido.
o que houve, de fato, na Universidade Bandeirante no dia 22 de outubro? o que levou centenas de estudantes a hostilizarem, com impropérios e ameaças de agressão, uma aluna por trajar um vestido curto? o que motivou realmente a turba?
quando se tentava encontrar senso para respostas, a própria universidade tomou a mais descabida das decisões. alegando desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade, a reitoria determinou a expulsão da aluna. puniu justamente a vítima humilhada, agredida e ameaçada de estupro, com toda a cena gravada e divulgada na internet.
apenas uma questão: e se fosse negra?
é imprescindível que os órgãos responsáveis cobrem à universidade uma solução tão duramente quanto em caso de racismo. não há [ou não deve haver] graus de distinção para demonstrações de intolerância, seja ela qual for. o absurdo não condiciona a falibilidade da culpa. muito menos quando se reverte a eleição do culpado.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

área vip youtube


ontem, eu fui ao show do Pearl Jam em Filadélfia, Pensilvânia. acesso gratuito, área vip youtube. estava na fila do gargarejo, tão próximo do palco para enxergar as caretas de Eddie Vedder, sentir a explosão dos riffs de Mike McCready. foi fantástico! parecia uma apresentação particular. sem namorada nos ombros do namorado, empurra-empurra, banho de suor. quando me deu sede, pressionei space bar e fui à cozinha pegar uma cerveja. a banda estava me esperando para finalizar Spin The Black Circle.
esse é o futuro do show: uma apresentação onde o público não está lá. das caixas amplificadores direto, em banda larga, para o estádio do seu quarto. o refrão repetido em msn, o isqueiro aceso em frente a web cam. a cadeira não precisa ser numerada; aliás, por que cadeira?! você pode assistir deitado, na cama, bem acompanhado, pois na hora da baladinha, não há lugar melhor que embaixo dos lençóis.
gostou da idéia? não?! não culpe Eddie Vedder, culpe Bono Vox. depois de exibir um show, em 3D, nos cinemas, no final do mês passado, o U2 transmitiu sua apresentação, na Califórnia, pela primeira vez, ao vivo, pela internet. conectados ao youtube, cerca de 2,5 milhões de fãs, de 15 países [incluindo o Brasil], puderam assoviar os acordes de With or Without You, enquanto atualizam as fotos do orkut. o bom é que, quando Bono fez o discurso sobre a importância da queda do Muro de Berlim, o google estava a um cique para explicar o que é o Reichstag.
Dave Grohl assistiu ao show do U2 e simplesmente adorou a idéia. cinco dias depois, sua banda, o Foo Fighters, também estava se apresentando pela internet. no entanto, o show do quarteto americano, ao contrário do irlandês, fazia jus às circunstâncias do mundo virtual: sem platéia, direto de um estúdio e com um tempo menor de duração. e ainda tinha uma vantagem para os chatos que ficam gritando: “Toca essa! Toca aquela!”; as músicas poderiam ser pedidas em mensagens pelo facebook ou pelo twitter.
gostou agora da idéia? ainda não?! quem simplesmente está adorando é a indústria musical. a proliferação de shows pela internet resultará numa redução astronômica do gasto e num aumento astronômico do lucro. sem o valor milionário do aluguel dos estádios, o custo com estacionamento, segurança e postos de venda de ingressos, os ganhos serão divididos apenas para o artista, a gravadora e o site responsável pela transmissão. quer um exemplo? no show do U2 aí acima, se cada acesso fosse vendido a somente um dólar, o lucro seria de 2,5 milhões de dólares. é mais ou menos o valor de um mega-espetáculo da Madonna, sem os gritinhos de eu te amo.
o melhor para a indústria musical, entretanto, é o prazer de finalmente se apoderar de uma idéia roubada, como uma espécie de contra-ataque aos domínios bucaneiros. pela primeira vez, o mercado se vinga, encontrando lucro no que, ilegal, tem proeminência no bel-prazer. sabe o show do Pearl Jam em Filadélfia? não foi transmitido por nenhum site de entretenimento, youtube ou facebook. foi gravado por pessoas na platéia, com câmeras digitais e smartphones, depois postado gratuitamente. qual a lógica? nenhuma. apenas a fidelidade de compartilhar um momento que, provavelmente, um fã do outro lado do mundo nunca poderá desfrutar.
esse é o novo truque da indústria musical: transformar fanatismo em lucro. anunciar que, num futuro próximo, para freqüentar a área vip youtube, será preciso pagar pelo acesso. as circunstâncias serão as mesmas, a qualidade por certo melhor, porém o estádio do seu quarto, a partir de então, terá bilheteria. até quando? não sei. acho que, talvez... até que o vento sopre as velas do corsário do Barba Negra.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

prêmio Nobel de religião


é preciso desmoronar a lógica que classifica um país desenvolvido ou subdesenvolvido, de acordo com o seu poder econômico. pense comigo: de que vale ter um PIB elevado, se as convenções sociais e os direitos individuais não são validados, sobretudo as escolhas sexuais, intelectuais e religiosas. o que acha, então: sabotemos o FMI?
é claro que não! sabotemos a ignorância, o desrespeito, a intolerância; quem está comigo? os relatores da Corte Européia de Direitos Humanos estão comigo. ontem, o tribunal determinou a retirada de todos os crucifixos das salas de aula na Itália. a decisão visa preservar a liberdade dos pais de educarem os filhos, segundo os conceitos religiosos que praticam em casa. um marco histórico na prevalência dos direitos constitucionais no que tange o reconhecimento da diversidade e da igualdade entre os credos, sobretudo num país que abriga o ninho do catolicismo.
por isso mesmo, não foi nem preciso o terceiro baque do martelo para se acumularem os protestos. relevando a óbvia indignação do Vaticano, que chamou a sentença de míope, numa declaração que claramente põe em xeque o título de país desenvolvido, a ministra da Educação italiana, Mariastella Gelmini, afirmou que “a decisão está impregnada de ideologia", e que “a presença de crucifixos nas aulas não significa uma adesão ao catolicismo, e sim representa a tradição”. contudo, é preciso lembrar a signora Gelmini que, num Estado laico, cultura é tradição, não religião.
mesmo com a maioria católica, 88% dos italianos, há um percentual de 12%, formado por budistas, muçulmanos, hindus e ateus, que devem ter suas crenças [ou a ausência delas] respeitadas e preservadas, principalmente nos centros de formações intelectuais. a escola nunca deve exercer domínio sobre os preceitos familiares, do mesmo modo que, ao contrário do que pensa o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, a educação religiosa não deve ser obrigatória no exercício dos valores educacionais.
a educação religiosa é uma escolha individual; pensar de outra forma é autoritarismo, intolerância. o Governo italiano, indignado com a sentença da Corte Européia de Direitos Humanos, mostra-se tão subdesenvolvido quanto o Governo brasileiro. o Brasil, não satisfeito de ser subdesenvolvido economicamente, faz questão que também o seja nas decisões que influem na preponderância das convenções sociais e dos direitos individuais. há algumas semanas, o Senado aprovou o projeto, firmado com o Vaticano, de tornar obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas de todo o país. o acordo institui o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil que, argumentos à parte, estabelece a hegemonia do catolicismo sobre as outras religiões.
é inacreditável como num país cuja formação foi assentada exatamente na diversidade étnica e, por conseguinte, religiosa, o Conselho Supremo aprove um projeto que privilegie uma religião, seja ela qual for. mesmo com meio milênio de avanços sociais [e, acredite, eles existem], o Brasil não consegue se desprender do complexo de colônia, sujeitando-se à militância de um país cujo único interesse é perpetuar a eterna imagem de um deus onipresente e onisciente, acessível somente através do catolicismo.
alguns dias depois da decisão inclinada do Senado brasileiro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, derrubou o abjeto veto, instituído em 1987, que impedia a entrada de soropositivos em solo americano. como muitos, eu achei a eleição de Obama a Prêmio Nobel da Paz prematura e imprópria, mas agora, de alguma forma, começo a perceber o título como um tipo de distinção antecipada. tendo a acreditar que a paz está na aceitação da diversidade de toda a espécie; em número, gênero e grau.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ilegal (e mortal) a 140 caracteres


analisemos um liquidificador. um aparelho de grande utilidade doméstica, com o qual se pode fazer patês, molhos, massas e drinques. o decepção é um delicioso drinque feito com o uso do aparelho, misturando leite condensado, suco de maracujá e cachaça. o liquidificador, no entanto, pode também ser perigoso. segurar suas hélices enquanto ligado, pode causar um grande estrago. como o twitter.
o microblog, que virou coqueluche no espaço virtual, resumindo o mencionável em 140 caracteres, depois do boom elementar, tem transitado entre as vestes do serviço e do desserviço. a Secretaria Municipal de Educação do Rio, por exemplo, acaba de informar que vai utilizar da ferramenta para sugerir leituras, anunciar projetos e tirar dúvidas de alunos e professores. o marco do serviço aconteceu no meio desse ano, no Irã, durante os conflitos provocados pela eleição de Mahmoud Ahmadinejad. embora a censura e o bloqueio de toda a espécie de meio virtual de informação, twettes [como são chamados os usuários] conseguiram postar, para o mundo, relatos de horror e covardia no país.
a questão é que, em contrapartida ao benefício, o twitter vem sendo utilizado, em larga escala, para o desserviço da ordem social. ontem, a Revista do O Globo deu cara a uma das atitudes mais irresponsáveis, praticadas ao tempo que se firmou a tutela da Lei Seca. Eduardo Trevissan, um publicitário de vinte e alguns anos, é o que poderíamos chamar de arauto dos motoristas embriagados. ele e quatro amigos administram uma página onde avisam, por meio de twittadas, onde estão as blitzen da Operação Lei Seca.
funciona da seguinte forma: quem sabe de uma blitz passa uma mensagem para um dos reguladores da página, que confirma a informação e repassa para 14 mil pessoas cadastradas. isso mesmo: 14 mil pessoas liberadas para beber e dirigir, sem qualquer preocupação em ser paradas e punidas. mas isso ainda não é nada. segundo Trevissan, a previsão é que, até o início do próximo ano, sejam 90 mil seguidores. ou seja, com orgulho de burlar a lei, serão milhares de balas para disparos a 120 km/h rumo a morte.
sim, pois qual propósito tem de informar onde está a blitz, a não ser para burlá-la? o publicitário usa de um dos argumentos mais estapafúrdios e vazios: “Não sou contra a Lei Seca, mas contra os transtornos gerados pelas operações de fiscalização. Eles provocam enormes engarrafamentos para flagrar um percentual um percentual mínimo de motoristas alcoolizados”. mentira das mais perniciosas e inconseqüentes! só em setembro, houve uma redução de 27% no número de vítimas de acidentes, em relação ao ano passado. contudo, há uma taxa preocupante de mortalidade que mesmo a fiscalização não consegue frear.
de acordo com reportagem do próprio jornal O Globo, no mesmo dia, apesar da Lei Seca, subiu em 26% o número de morte de jovens entre 15 e 29 anos, de janeiro a agosto deste ano. as principais causas [como pode-se imaginar] são excesso de velocidade e embriaguez no volante, impulsionadas pela inexplorável noção de que tudo pode e nada vai acontecer. acontece, e muito! twittar para driblar as fiscalizações é um atentado a vida; claro e fatal.
no caso do orgulhoso Trevissan, a personificação da ilegalidade poderia aguçar a curiosidade de algum promotor público que, só para constar, poderia convocá-lo para descobrir o que há de tão cativante em avisar milhares de anônimos, sobretudo jovens, como podem burlar uma lei federal feita para salvar vidas. por que não analisar o publicitário? a decepção também pode ser um drinque delicioso.



sábado, 31 de outubro de 2009

pequenas criaturas


é como o fotógrafo de Liliput. um captor de instantâneos comezinhos, banais, a rotina das atividades mecânicas e... ops, até as atividades mais íntimas. ele, porém, não atende pelo nome de Gulliver; ou vem do mesmo país que o autor das viagens fantásticas, o irlandês Jonathan Swift. é francês, e se diz um observador do dia-a-dia em miniatura.
seu nome é Vincent Bousserez. fotógrafo e design gráfico que, há um ano, vem registrando cenas de um mundo, naturalmente relegado à periferia da visão. as pequenas coisas que enxergamos, mas não vemos, a não ser chegando bem perto ou aprisionando o close. Bousserez enquadra os objetos em sua natureza maior, criando cenas onde a boca de um jarro se transforma num denso túnel e o dorso nu de uma mulher numa montanha. um mundo fantástico habitado por liliputianos quase reais, plasticamente vivos.
miniaturas, isso que são. bonequinhos de plástico que, focados em grande-angular, compõem reproduções da vida cotidiana. o catálogo de fotografias faz parte da coleção Plastic Life, um exercício de criatividade e técnica, elogiado nos diversos países em que foi exposto. a inspiração, segundo Bousserez, nasceu quase de um impulso infantil, depois de se encantar com uma loja de miniaturas, que conheceu por intermédio de um amigo. ali deu-se o lampejo para um tipo único de perceber a vida, através do visor da câmera.
Plastic Life revela exatamente isso: um artista único, bem-humorado, despretensioso e, por isso mesmo, genial. na seção quimera, os pequenos habitantes de um vasto mundo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

a máquina do tempo


teólogos e historiadores talvez nos convençam que a inveja é o sentimento mais remoto registrado. como acreditam alguns elos cristãos, Satanás teria sido expulso do Paraíso por ter invejado a humanidade, em seu potencial de unir-se eternamente a Deus. o pecado original, cometido por Adão e Eva, fora um ato de inveja, desejando no fruto proibido a imortalidade única do Criador. também está no Livro do Gêneses, o registro do primeiro assassinato, a morte de Abel por Caim, ínvido da predileção de Deus pelo irmão; como em outras relações de inveja, descrita nas passagens de Isaú e Jacó, Ismael e Isaac e a venda de José pelos irmãos, por este ter um belo casaco.
são relatos que, sim, podem supor a inveja como o sentimento mais remoto, mas [e, nesse caso, livre-se dos teólogos e dos historiadores] certamente não o mais duradouro. esse título cabe ao amor. exima as inspirações artísticas, os motivos para guerras e os hinos sociais e perceba, em sua vida, das pessoas que conheceu e confrontou, se o que segue reinante não é o amor. toda a raiva, o rancor, a culpa que sente por alguém, um dia, ao menor das percepções, irá se extinguir; o amor nunca. o amor é o único sentimento que a morte não consegue desvanecer. pulsa até o último suspiro e, se cientistas tornassem possível a viagem no tempo, certamente seria o principal motivo para o ingresso. pense bem naqueles que conheceu, quem gostaria de rever de volta ao passado?
provavelmente essas considerações melosas não tenham o menor sentido para você [e, talvez, não tenham o menor sentido de maneira alguma], contudo foi o que se construiu para mim, ao ler a notícia de que astrônomos puderam “ver” explosão de 13 bilhões de anos atrás. rastreando uma explosão de raios-gama, chegaram a luz da estrela que morreu 630 milhões de anos depois do Big-Bang, que originou o universo. assim, o homem volta ao máximo de tempo até agora, pouco depois do início de tudo. como nos faz crer a Bíblia, ali entre a expulsão de Satanás do Paraíso, a mordida de Eva na maçã e os planos fratricidas de Caim contra Abel.
talvez aí não seja o caso de inveja, mas de soberba. pode ser até que esteja superestimando a inteligência humana, porém pense o seguinte: há 15 anos, não se imaginava essa multiplicação astronômica de celulares ou que pudesse existir um aparelhinho de bolso, capaz de reproduzir música, vídeo, telefonar, ler livro, tirar foto e acessar a internet; aliás, há 15 anos, inter... o quê?! hoje, já se cogita as viagens comerciais intergalácticas e o teletransporte. então, por que não a máquina do tempo? não seria nada mais do que o homem faz nos últimos anos: transformar ficção em realidade.
a possibilidade de se viajar no tempo seria a cura expressa para a depressão. bastaria escolher um momento da vida em que se lembrasse feliz, e voltar para reencontrar os sentimentos bons e os sorrisos largos. o passeio seria o máximo de tempo que se poderia voltar, entretanto apenas para rever, nunca interagindo com o passado, para não causar um colapso na linha do tempo. um espectador, assistir a si mesmo e as pessoas que ama no mais esplendoroso dia de sua vida. o difícil seria controlar a inveja.